A PAIXÃO DO MEDO
Medo é um frio na alma que paralisa.
Alma é a ideia de si e de seu corpo.
O medo não é louco.
Mas enlouquece o ânimo e extravia a alma.
É o mistério que dá medo e enlouquece.
E temos medo de tudo, quase.
Medo do grito e do silêncio;
Do vazio e do infinito;
Do efêmero e do definitivo;
Do para sempre e do nunca mais.
Medo do julgamento e da tortura;
Da traição e da censura;
Da trama cerrada
Onde a violência captura o entendimento.
Medo da culpa e do castigo;
Do perigo e da covardia;
Do que fizemos e do que deixamos de fazer;
Dos medrosos e dos destemidos;
Da mentira e principalmente da verdade;
Das alamedas e dos becos onde até a canção,
Medrosa, foge, e cala-se.
Medo do esquecimento e de jamais esquecer;
Da insônia e de não mais despertar;
Do irreparável, do inominável;
Do labirinto de espelhos,
Fantasmas nossos e alheios.
Medo do ódio que devora,
Da cólera que corrói.
Medo da resignação sem esperança;
Da dor sem fim e da desonra;
Da mutilação dos corpos e dos espíritos;
Medo do abismo.
Medo dos vivos e dos mortos;
Dos subterrâneos infernais
De onde sobem espectros rondando a festa imerecida.
Mas o inferno somos nós.
O inferno são os outros.
Medo da fala mansa do inimigo.
Mas muito mais medo do inesperado punhal
Seguro por uma mão há pouco amiga,
Para trespassar nosso peito aberto
Ou pelas costas nos aniquilar.
Mas, o que é o medo?
O que é essa louca paixão pelo medo?
Susto, espanto, pavor?
Medo metafísico sem objeto?
Tudo e nada lhe servindo para consumar-se
Até chegar ao ápice: medo do medo?
Combate entre duas paixões:
Fuga da morte e desejo de viver?
Paixão triste, o medo é e sempre será paixão.
Só depois que as paixões decidirem o futuro,
Saberemos se, tristemente,
Morreremos de medo
E sobre os nossos túmulos
Nascerão flores amarelas e medrosas.
Não é que eu tenha medo,
É que perdi a vontade de ter coragem.
Nani Manso – 16 de Fevereiro de 2004.
Alguns trechos são baseados em textos da
Marilena Chauí e Carlos Drummond de Andrade.
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