sábado, 4 de abril de 2015

Pessoas

Tentei fugir de mim
Fazer do passado o que deveria ser o nosso futuro.
Às vezes penso que não faço parte do mundo
Ou do seu mundo?
Diz-me quem sou eu?
Há tempos queria ser tudo!
Hoje sou o presente com saudades do passado
E sem esperanças para o futuro.
Lembra-se de quando tínhamos todos os sonhos do mundo?
Lembra-se que éramos seguidores das ideologias poéticas de Fernando Pessoa?
Pessoa? Que Pessoa?
Que tipo de pessoa sou eu?
Quais dos Pessoas sou eu?
Nenhum, porque
“Não sou nada
Nunca serei nada
Não posso querer ser nada
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo”.*
Até parece uma profecia, será que ele sabia?
Aqueles sonhos eram tão modestos e inocentes.
Onde será que estão agora?
Talvez sejam eles os sonhos de outras pessoas,
Talvez tenham morrido dentro de nós.
Hoje estou
“Com o destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada do nada”.*
De tudo... só restamos eu e você,
Com nossas vidas diferentes,
Tentando torna-las iguais.
Lembra-se das outras pessoas e suas juras de amizade eterna?
O que foi que aconteceu?
“Estou hoje dividido entre a lealdade que devo à tabacaria do outro lado da rua/ como coisa real por fora/ e à sensação de que tudo é sonho/ como coisa real por dentro./ Falhei em tudo/ como não fiz propósito nenhum/ talvez tudo fosse nada”.*
A culpa não é só delas!
Talvez não seja minha também?
Talvez nem haja culpados, só vítimas!
Somos desconhecidos agora? Ou nos conhecemos de “vista”?
É tudo muito estranho!
“Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei,
Eu que não sei quem sou?
Ser o que penso?
Mas penso ser tantas coisas!”*
Sinto-me tão só!
Às vezes eu acho que não tenho mais você.
Às vezes tenho certeza.
Não dá para voltar atrás?
A vida não parece ser minha.
Tento esquecer, mas não quero esquecer.
O que é de nós agora?
Não queria perder-te também.
Será que magoei alguém?
Si fiz não foi por querer.
Faço as coisas sem pensar, digo coisas sem querer dize-las,
Não tenho total controle sobre mim.
“Não, não creio em mim
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?”*
Estou perdendo coisas novas e todos os dias tenho fazer aqueles poemas,
Cheios de ideias antigas e palavras mofadas.
Eles amadureceram,
Mas não melhoraram.
O mundo não mudou,
Aquelas velhas guerras terminam e começam o tempo todo.
Eu queria mudar,
Mas eu também não mudei.
“Sempre uma coisa debaixo da outra/ sempre uma coisa tão inútil como a outra,/ sempre o impossível tão estúpido como o real,/ sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície/ sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra”.*
Mas a vida continua
Sem minhas próprias ideologias
Sem criatividade para novas rimas
Sem esperança de que alguma coisa mude,
Ou eu ou o mundo.
Só a de que amanhã seja um novo dia.

*Citação do poema “Tabacaria”, de Fernando Pessoa.